Por que a “fórmula da palma da mão” pode ajudar a esclarecer homicídios

Ao apoiar em superfícies e segurar objetos deixamos para trás as impressões das palmas das nossas mãos. Esses rastros são valiosos, especialmente em cenas de crimes. Homicídios, furtos, roubos e agressões podem registrar o que os peritos chamam de “impressões palmares”, revelando quem entrou em contato com portas, armas e veículos.

Esse rastro é ainda mais relevante porque muitos vestígios palmares são deixados onde as impressões digitais não surgem ou aparecem de forma ilegível, como em superfícies irregulares. Estima-se que entre 25% a 30% dos vestígios encontrados nas cenas dos crimes sejam impressões das palmas das mãos, porém, hoje, grande parte desses fragmentos não é aproveitada nas investigações por falta de arquivos organizados para esse tipo de impressão, de sistemas automatizados adequados ou de profissionais capacitados para analisá-los.

Se o Brasil pretende enfrentar o baixo índice de elucidação de homicídios, é imprescindível incorporar a tecnologia de identificação de palmares como parte da investigação. Apenas 36% dos 45.747 homicídios cometidos em 2023 foram esclarecidos, segundo o Instituto Sou da Paz. Crimes emblemáticos já foram solucionados em Brasília a partir dos vestígios deixados pelas palmas das mãos. É o caso do assassinato do desembargador Irajá Pimentel, em 2002, quando o magistrado foi alvejado por tiros caminhando ao lado de sua esposa.Play Video

Assim como as digitais, as impressões palmares são únicas e imutáveis, servindo como uma espécie de “assinatura biológica”. Nem mesmo gêmeos idênticos têm as mesmas impressões palmares. Esses desenhos se formam ainda na fase fetal e permanecem inalterados ao longo da vida, seguindo o mesmo princípio das impressões digitais.

Recentemente, participei da pesquisa “Padrões nas porções distais das palmas das mãos como chave para a identificação de impressões palmares”, publicada na revista da International Association for Identification (IAI). O estudo analisou as impressões palmares de 4 mil pessoas da população brasileira e, a partir dos padrões identificados, criou uma espécie de “fórmula da palma da mão”. Foi o primeiro estudo a mapear e correlacionar esses padrões estatisticamente da região superior da palma da mão que é a mais encontrada em cenas de crimes, trazendo uma importante contribuição para a perícia criminal.

Ao criar essa base padronizada, a pesquisa permite automatizar o exame de impressões palmares coletadas nas cenas dos crimes, contribuindo para que as investigações possam identificar ou excluir suspeitos de forma mais rápida e precisa. Isso corrige uma importante lacuna atual de dependência majoritária da experiência dos profissionais para a pesquisa e a análise das impressões palmares, que são consideradas atividades complexas até para grandes especialistas no tema.

Com investimentos em tecnologia e especialização dos peritos envolvidos nas investigações, seria possível ampliar a inserção das impressões palmares em bancos de dados estaduais e até criar uma base nacional; cruzar vestígios de diferentes naturezas (digitais, palmares e faciais) em um mesmo sistema e reduzir o tempo de resposta das perícias e das investigações, com impacto direto no drama brasileiro da impunidade.

Este conteúdo foi publicado pelo portal de notícias CNN Brasil em 8 de janeiro de 2026, disponível neste link.

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